Uma casa pode ser bonita numa visita de meia hora e revelar-se desconfortável quando chega o primeiro verão ou o primeiro inverno.
Quando procuramos casa, é natural que a localização, a área, a distribuição e a estética ocupem grande parte da nossa atenção. Mas há outra característica, menos evidente numa primeira visita, que influencia profundamente a forma como vivemos um espaço: o conforto térmico em casa.
Uma divisão muito luminosa pode ser extraordinária durante parte do ano e tornar-se excessivamente quente no verão. Uma casa aparentemente acolhedora pode exigir um esforço considerável para se manter confortável no inverno.
Por isso, antes de comprar, vale a pena olhar para além daquilo que os olhos reconhecem imediatamente.
O que significa ter conforto térmico em casa?
Conforto térmico não significa simplesmente ter aquecimento no inverno ou ar condicionado no verão.
Significa que a casa consegue proporcionar condições interiores agradáveis sem depender excessivamente de equipamentos de climatização.
A qualidade da envolvente do edifício, o isolamento, as janelas, a orientação, a exposição solar, a ventilação e os sistemas de aquecimento e arrefecimento influenciam esse desempenho. O próprio certificado energético considera elementos como isolamento de coberturas e pavimentos, janelas e sistemas de climatização. Energy
Na prática, uma casa com melhor desempenho tende a necessitar de menos energia para se manter a uma temperatura confortável. Energy
1. Observe a orientação solar
Dizer que uma casa “tem muito sol” não é suficiente.
Importa perceber quando recebe esse sol, em que divisões e durante quanto tempo.
A orientação e a exposição das fachadas influenciam a quantidade de radiação solar que entra na habitação. Nos períodos de maior calor, essa exposição pode contribuir para o sobreaquecimento se não existir proteção adequada.
Quando visitar uma casa, tente perceber como o sol percorre as principais divisões ao longo do dia.
E, sempre que possível, não avalie apenas a luz que encontra no momento da visita.
2. Veja como a casa controla o sol
Ter grandes janelas pode ser uma enorme qualidade. Permitem entrada de luz natural e podem tornar os espaços visualmente mais agradáveis.
Mas vidro e sol precisam de ser analisados em conjunto.
Estores, portadas, persianas, palas, varandas, vegetação ou outros elementos de sombreamento podem ajudar a controlar a radiação solar antes de esta aquecer excessivamente o interior.
A ADENE/LNEG identifica precisamente o sombreamento para limitar os ganhos solares como uma das estratégias relevantes para melhorar o conforto térmico das habitações durante o verão. Adene
Por isso, numa visita, não olhe apenas para o tamanho das janelas.
Pergunte também: como é que esta casa se protege do sol quando é necessário?
3. Teste a possibilidade de ventilação natural
Uma casa precisa de conseguir libertar o calor acumulado.
A existência de janelas em fachadas diferentes pode favorecer a circulação de ar, dependendo da configuração do imóvel e das condições exteriores.
Durante os períodos quentes, a ventilação natural pode ser particularmente útil quando realizada nas horas em que a temperatura exterior é inferior à temperatura dentro da habitação. Adene
Quando estiver a visitar uma casa, abra as janelas.
Perceba se existe circulação de ar, se algumas divisões parecem abafadas e se é possível ventilar a habitação de forma eficaz e segura.
É um teste simples que pode revelar bastante sobre a experiência quotidiana daquele espaço.
4. Não ignore as janelas
As janelas são um dos pontos de contacto entre o interior e o exterior e podem influenciar significativamente o desempenho térmico de uma habitação.
Observe o tipo de vidro, o estado das caixilharias, a qualidade do fecho e a eventual existência de entradas de ar indesejadas.
Uma janela eficiente não resolve, por si só, todos os problemas térmicos de uma casa. O desempenho deve ser analisado em conjunto com a envolvente do edifício e os restantes elementos construtivos.
Ainda assim, é uma das características que merece atenção antes de comprar.
5. Procure sinais que uma fotografia não mostra
Há aspetos de uma casa que raramente aparecem num anúncio imobiliário.
Humidade, condensação, manchas junto às janelas ou paredes, diferenças acentuadas de temperatura entre divisões e sinais de degradação merecem ser observados e, quando necessário, avaliados tecnicamente.
Não significa que todos estes sinais correspondam a um problema grave.
Significa que devem originar perguntas antes da decisão, e não depois dela.
6. Consulte o certificado energético — mas não fique apenas pela letra
O certificado energético é uma fonte importante de informação para quem está a comprar casa.
Pode fornecer informação sobre o desempenho energético do imóvel, consumo típico, custos estimados e recomendações de melhoria. A Comissão Europeia salienta precisamente a sua utilidade para ajudar compradores e arrendatários a tomar decisões mais informadas. Energy
Mas não olhe apenas para a classe energética.
Leia as recomendações e procure perceber quais são os elementos que condicionam o desempenho da habitação.
Se estiver perante uma decisão importante ou existirem dúvidas sobre o comportamento térmico do imóvel, poderá justificar-se a análise de um técnico qualificado.
7. Pergunte quanto custa tornar a casa confortável
Uma casa pode ter potencial e, ainda assim, exigir investimento.
Se identificar limitações térmicas, tente perceber o que seria necessário fazer e quanto poderia custar.
A intervenção pode passar, consoante o caso, pela melhoria do isolamento, substituição de janelas, instalação de soluções de sombreamento ou melhoria dos sistemas de aquecimento e arrefecimento. São também exemplos de intervenções reconhecidas no contexto da melhoria do desempenho energético dos edifícios. Energy
Esta informação deve entrar na análise financeira da compra.
Um preço aparentemente interessante pode deixar de o ser se a casa exigir um investimento significativo para atingir o nível de conforto que procura.
Uma visita deve responder a mais perguntas do que “gosto desta casa?”
Gostar é importante. Afinal, uma casa não é apenas um ativo: é o lugar onde vivemos.
Mas uma boa decisão imobiliária precisa de juntar emoção e informação.
Antes de comprar, observe a luz, a orientação, as janelas, o sombreamento, a ventilação e os sinais que o próprio edifício lhe dá.
E faça uma pergunta muito simples:
Como será viver aqui no dia mais quente do verão e numa noite fria de inverno?
Pode não encontrar todas as respostas durante uma visita. Mas saber quais são as perguntas certas já muda a qualidade da decisão.
Porque uma casa não deve apenas parecer confortável.
Deve conseguir sê-lo.
Se está a pensar comprar casa e quer analisar a decisão para além da localização, da área e do preço, posso ajudá-lo a olhar para o imóvel no seu conjunto.
Clareza para decidir. Serenidade para avançar.
Fontes: ADENE/LNEG e Comissão Europeia — Energy Performance of Buildings, em vez de deixar nomes de sites espalhados pelo corpo do texto. ADENE — conforto térmico nas habitações Comissão Europeia — certificados energéticos dos edifícios